Sobre a sede da alma (1676)

G. W. Leibniz
Fevereiro de 1676

Há seis anos sua alteza o Duque de Hanover,1 que tinha por hábito meditar acerca de religião, instruiu Boinburg2 a questionar minha opinião sobre a ressurreição da carne. Expus minhas opiniões em um breve texto3 que, então, enviei ao duque. Agora, em fevereiro de 1676, deparei-me (graças a uma comunicação de Knorr)4 com um texto publicado por Boyle em 1675 acerca da possibilidade da ressurreição, onde há muitas coisas que admiravelmente concordam com meus pontos de vista. Todavia, Boyle desperdiçou muito tempo com ilustrações químicas; particularmente enfrentei as dificuldades com maior precisão. Penso que a flor da substância é nosso corpo. Essa flor da substância subsiste perpetuamente a todas as mudanças; é esboçada pela Luz dos rabinos. Disto vê-se claramente por que os canibais, devorando um homem, não têm poder sobre a flor da substância. Esta se encontra difusa em todo corpo e de certo modo contém apenas forma. Acrescente-se, também o que Borel, em seu De Vero Telescopii Inventore (…) Accessit etiam Centuria Observationum Microscopicarum, afirma acerca da forma da cerejeira que está incluída na semente, ou do fruto selvagem. Acrescente-se, ademais, o que se afirma da Árvore dos Filósofos e também o que um inglês afirmou recentemente, em uma revista francesa, sobre a força plástica – que a força plástica nada mais é que uma substância ativa de uma forma que aumenta quando pode. Essa força parece existir antes da concepção; quando da concepção apenas lhe é dada a faculdade de desenvolver-se. Acrescente-se o que afirmam Sheck, Davisson e outros sobre a força plástica. Acrescento apenas aquilo que não foi observado por Boyle: que a alma parece estar implantada firmemente nessa flor de substância. Veja-se o que Perrault irá argumentar contra Mariotte sobre a sede da alma. Todavia, se também fosse necessário explicar a restituição da massa remanescente – que, entretanto, não é necessário, já que é, em geral, terra (note-se o que disto pode ser derivado acerca da existência de corpos em um corpo e sobre a água, o vinho e o pão da Eucaristia; os Escolásticos). Isso pode ser demonstrado por um modo maravilhoso através de um notável experimento. Se vários sais são dissolvidos em uma mesma água, os indivíduos de mesma espécie são recombinados sem perturbação. Mas, o que se pode fazer no caso de quatro espécies de sal pode ser feito com maior sutileza com 1 000 000 000 ou mais espécies; já agora podemos isso conceber ? Tão freqüentemente como isso ocorre em quaisquer espécies de sal, ocorre em qualquer indivíduo humano – isto é, que em uma solução mais refinada e em um tempo mais curto, tudo pode ser recombinado por cristalização. O argumento baseado nos canibais é exemplar e a partir dele deve-se reconhecer uma flor de substância. E, aqui, acrescente-se o que Libavius e Quercetanus afirmam sobre a ressurreição e o que Kircher nos assegura; também o que Glauber afirma sobre a ressurreição do nitrato de potássio; também [o manuscrito interrompe-se aqui].

Notas:
1. Johann Friedrich, Duque de Brunswick-Lüneburg;
2. Johann Christian, Barão von Boineburg;
3. De Resurrectione corporum;
4. O alquimista Christian Knorr von Rosenroth.