Artigo Rorarius, nota H do Dicionário Histórico e Crítico, de Pierre Bayle

Artigo Rorarius [1696-97]
Fonte: Dictionnaire historique et critique. Paris: France-expansion. AUPELF/CNRS. 1972

Leibniz (…). Ele [74] ratifica a opinião de alguns pensadores modernos segundo a qual os animais já estão organizados no sêmen e também acredita [75] que a matéria não pode, sozinha, constituir uma unidade verdadeira. Assim, todo animal está unido a uma forma que é um ser simples, indivisível, verdadeiramente único. Além disto, ele supõe [76] que esta forma nunca abandona seu sujeito, donde resulta que, falando adequadamente, na natureza não há morte, tampouco geração. Ele exclui [77] de tudo isso a alma do homem; ele a coloca à parte etc. Esta hipótese [78] nos livra de uma parte do problema. Não mais precisamos responder às incômodas objeções feitas aos escolásticos. A alma dos animais, diz-se contra aqueles, é uma substância diferente do corpo; então, deve ser produzida por criação e destruída por aniquilação; seria necessário, portanto, que o calor [79] tivesse o poder de criar as almas e de destruí-las [80]: e que se pode dizer de mais absurdo? As repostas dos peripatéticos a esta objeção não são dignas de consideração ou de saírem da escuridão das salas de aula onde são expostas a jovens estudantes; servem tão somente para nos convencer que a objeção é irrespondível no que lhes diz respeito. Não se encontram em melhor posição de evitar o precipício para o qual se lançam, quando se empenham a encontrar algum senso e alguma sombra de razão na contínua produção de um número quase infinito de substâncias que são totalmente destruídas alguns dias depois, mesmo que sejam mais nobres e mais excelentes que a matéria, que sempre permanece na existência.

A hipótese do senhor Leibniz desvia-se de todos esses golpes porque nos leva a crer:
1º) que no início do mundo Deus criou as formas de todos os corpos e, por conseqüência, todas as almas dos animais;
2º) que essas almas continuam existindo para sempre desde aquele momento, inseparavelmente unidas ao primeiro corpo organizado no qual Deus as alojou.

Isso os poupa da metempsicose que, de outro modo, seria um refúgio onde necessariamente deveríamos nos abrigar.
Para que se examine se bem entendi o pensamento do senhor Leibniz, reproduzo aqui parte de sua obra [81]:

E aqui as transformações observadas por Swammerdam, Malpighi e Leeuwenhoek, que se encontram entre os melhores observadores da nossa época, auxiliaram-me e conduziram-me a aceitar mais facilmente que nenhum animal ou outra substância organizada tem origem quando achamos que sim e que sua aparente geração é, tão somente, um desenvolvimento ou um tipo de aumento. E tenho notado que o autor de A Busca da Verdade, Regis, Hartsoeker e outros competentes homens não se distanciam dessa opinião. Mas ainda permanece a maior questão no tocante ao que é feito dessas almas ou formas quando da morte do animal ou da destruição da substância individual organizada. Essa questão é, dentre todas, a mais difícil, porque parece pouco razoável que as almas possam permanecer, inúteis, em um caos de matéria confusa. Isso me levou a decidir, ao final, que há apenas uma opinião que pode razoavelmente ser tomada, qual seja, que não apenas a alma é conservada, mas também o próprio animal e seus mecanismos orgânicos; embora a destruição das suas partes mais grosseiras o torne tão pequeno quanto pouco perceptível aos nosso sentidos, como era antes do seu nascimento. E, de fato, ninguém pode exatamente dizer a verdadeira hora da morte, que por um longo período pode ser tomada por uma simples suspensão de ações observáveis e que, finalmente, nada mais é do que aquele exemplo de animais simples: testemunha a ressurreição de insetos que haviam sido afogados e em seguida encobertos com giz em pó, e muitos exemplos similares que demonstram claramente que haveria muito mais ressurreições, mesmo em casos extremos, se os homens estivessem em uma posição de reparar o mecanismo. Parece que, era algo desse tipo que nos falava Demócrito, embora fosse um completo atomista, e mesmo que Plínio o tenha ridicularizado pelo que havia dito. É natural, então, que um animal, desde que sempre tenha estado vivo e organizado (como pessoas de grande intuição começam a reconhecer), sempre permaneça como tal. De fato, desde que, por isso, não há primeiro nascimento ou inteira nova geração de um animal, segue-se que não haverá extinção final ou morte completa no estrito sentido metafísico; e que, por conseqüência, em lugar da transmigração das almas, nada mais há que uma transformação de um e mesmo animal conforme seus órgãos são diferentemente dispostos e mais ou menos desenvolvidos.

Há alguns pontos problemáticos na hipótese do senhor Leibniz, mesmo que contenham a extensão e a força de seu gênio. Por exemplo, ele argumenta que a alma de um cão age independentemente do corpo: “… que tudo nela origina-se de sua própria natureza, com uma perfeita espontaneidade quanto a si mesma e ainda com uma perfeita conformidade a coisas fora dela. (…) essas percepções internas na própria alma devem originar-se de suas próprias constituições originais, ou seja, da sua natureza representacional (capazes de expressar coisas externas por meio da relação com seus órgãos), que possui desde sua criação e que constitui seu atributo individual. [88]

Disto se segue que ela sentiria fome e sede em certos instantes mesmo se não houvesse nenhum corpo no universo; mesmo se “nada existisse exceto Deus e a alma”. Ele esclarece [89] seu pensamento através do exemplo de dois relógios que estão perfeitamente sincronizados: isto é, ele supõe que, segundo as leis particulares que fazem agir a alma, ela deve sentir fome em um instante; e que, segundo as leis particulares que regem o movimento da matéria, o corpo que está unido àquela alma deve ser modificado quando a alma tem fome.

Aguardarei até que o ilustre autor deste sistema o aperfeiçoe para, só então, preferi-lo àquele das causas ocasionais: não posso compreender o encadeamento de ações internas e espontâneas que fazem com que a alma de um cão sinta dor imediatamente após ter sentido prazer, mesmo que ela esteja sozinha no universo. Compreendo por que um cão passa imediatamente do prazer à dor quando, estando muito faminto e tendo começado a se alimentar, alguém nele bate com uma vara; mas que sua alma seja construída de tal modo que sentisse dor no instante em que é açoitado, e mesmo que não o tenha sido, e mesmo que continuasse a se alimentar sem ser perturbado ou impedido, isto é o que não consigo entender.

Também considero a espontaneidade desta alma totalmente incompatível com os sentimentos de dor e, em geral, com todas as percepções que a ela desagradam. Além disso, a razão pela qual este ilustre homem não aprecia o sistema do senhor Descartes parece-me ser uma falsa suposição, pois não se pode dizer que o sistema das causas ocasionais faça intervir a ação de Deus por milagre [90], Deum ex machina , na dependência recíproca do corpo e da alma, pois como Deus intervém somente seguindo leis gerais, Ele não age extraordinariamente. Segundo o senhor Leibniz, a virtude interna e ativa comunicada às formas dos corpos conhece a seqüência de ações que ela deve produzir? De maneira alguma; pois sabemos por experiência que ignoramos se em certos instantes temos tais e tais percepções. Portanto, seria necessário que as formas fossem dirigidas por algum princípio externo na produção de seus atos. Isso não seria o Deus ex machina , do mesmo modo como no sistema das causas ocasionais? [91]

Finalmente, como ele supõe com toda razão, que todas as almas são simples e indivisíveis, não se pode compreender que elas possam ser comparadas a um relógio; isto é, que por sua constituição original possam elas diversificar suas operações, servindo-se da atividade espontânea que receberam do seu criador. Concebe-se claramente que um ser simples aja sempre uniformemente, se nenhuma causa externa o desviar. Se ele fosse composto de muitas partes como uma máquina, agiria diversamente, porque a atividade particular de cada parte poderia mudar a todo instante o curso da atividade das outras; mas, em uma substância única, onde se encontraria a causa da mudança de operação?

Notas de Bayle:

74. Ver texto publicado no Journal des Savants de 27 de junho de 1695, p. 449 [SN §6]
75. Journal des Savants , p. 446 [SN §3]
76. p. 447 [SN §4]
77. Journal des Savants , p. 448, 450 [SN §§ 5, 8]
78. N. Bernier em sua Relation dss gentils de l’Indoustan p. 200 ss, relata uma opinião de algum modo similar dos filósofos daquele país.
79. Ovos de galinha eclodem quando colocados em fornos aquecidos. Esta é uma prática adotada no Egito.
80. Pode-se matar vários tipos de animais colocando-os em um forno muito quente.
81. Journal des Savants de 27 de junho de 1695, p. 449 [SN §§6, 7]
[…]
88. Journal des Savants de 4 de julho de 1695, p. 457 [SN §14]
89. Ver Histoire des ouvrages des savants de fevereiro de 1696, pp. 274-275 [Leibniz. Segundos esclarecimentos sobre o Sistema Novo]
90. ibid.
91. Consultar as objeções apresentadas pelo senhor Simon Foucher ao senhor Leibniz no Journal des Savants de 12 de setembro de 1695, p. 639 ss.