vida de leibniz

Introdução

Atualmente os biógrafos costumam dividir a vida profissional de Leibniz em quatro períodos:

  1. infância, de 1646 a 1667, em Leipzig e Nuremberg
  2. primeiros passos na política, teologia e filosofia, de 1667 a março de 1672, em Frankfurt e Mainz
  3. período parisiense (incluindo viagens a Londres), de março de 1672 a novembro de 1676
  4. Hanover, de 1676 até sua morte em 1716

I. Leibniz em Leipzig e Nuremberg (1646-1667)
Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig em 1º de julho de 1646, filho de Friedrich Leibniz, professor de filosofia moral na Universidade de Leipzig, e de Catharina Schmuck. Tendo perdido o pai em 1652, sua mãe se encarregou de sua educação. O garoto ingressou na escola aos sete anos e tão logo aprendeu a língua latina (que, segundo o próprio Leibniz, decorreu de seu próprio esforço autodidata), passou a freqüentar a biblioteca do seu falecido pai. Lá empreendeu várias leituras: poetas, oradores, juristas, filósofos, matemáticos, historiadores e teólogos – de Lívio a Cícero; de Heródoto, Xenofonte e Platão a historiadores do Império Romano. O hábito de empreender uma leitura universal e assídua o fez dominar muitos campos do saber. Ele mesmo nos relata que a História, a poesia e a Lógica estavam entre seus primeiros interesses:

“Antes que alcançasse a classe escolar na qual a Lógica era ensinada, aprofundei-me na leitura dos historiadores e poetas, pois, tão logo aprendi a ler passei a desfrutar dos seus versos. Porém, assim que aprendi Lógica fiquei impressionado com a ordem dos conceitos.” (GP VII 516) [cf. Ariew, p.18]

Leibniz freqüentou a universidade dos 14 aos 21 anos, inicialmente na Universidade de Leipzig (1661-1666) e, depois, na Universidade de Altdorf (1666-1667). Nos anos seguintes, dedicou-se à jurisprudência e à filosofia. Aparentemente, teve seu doutorado em Direito recusado em Leipzig em virtude de sua pouca idade (embora uma outra versão afirme que o doutorado lhe tenha sido negado pelo Deão da faculdade sob influência de sua esposa, a quem Leibniz granjeara a antipatia). Seja como for, obteve o doutorado em Altdorf defendendo uma tese intitulada De Casibus Perplexis in Jure.
Durante esse mesmo período, Leibniz travou conhecimento com o barão Johann Christian von Boineburg (1622-1672), Ministro de Philipp von Schönborn, Eleitor de Mainz e uma das mais eminentes figuras políticas da época. Embora Leibniz tenha sido convidado, à época, a integrar o corpo docente da Universidade de Altdorf, preferiu ingressar no serviço público, sob o patronato de Boineburg, vindo a ocupar diversos cargos em Mainz e Nuremberg.

II. Leibniz em Frankfurt e Mainz (1667-1672)
As primeiras publicações leibnizianas, além de sua tese de doutorado, abordavam temas políticos e jurídicos. Assim, em 1669, sob o pseudônimo de Georgius Ulicovius Lithuanius, Leibniz escreveu uma obra acerca da sucessão real polonesa. Quando Johann Casimir, Rei da Polônia, abdicou de sua coroa em 1668, o Príncipe Palatino Phillip Wilhelm von Neuburg tornou-se um dos pretendentes. Leibniz argumentava que não poderia haver melhor escolha que von Neuburg.
No mesmo ano, Leibniz publicou um novo método para o ensino e aprendizagem da jurisprudência: Nova methodus discendae docendaeque jurisprundentiae, dedicando-o a von Schönborn.
Contudo, uma das mais importantes atividades políticas desenvolvidas por Leibniz em Mainz consistiu na elaboração de um plano, endereçado a Luis XIV, sugerindo que a Holanda (enquanto potência mercantil com vastos negócios no Oriente) seria prejudicada pela eventual conquista do Egito pela França – tal plano incidentalmente satisfaria os interesses expansionistas franceses para além do continente europeu. Embora não tenha frutificado à época, de algum modo tal esquema permaneceu latente nos círculos militares franceses até sua realização por Napoleão. Embora a missão, iniciada em 1672, de promover tal plano tenha sido mal sucedida, a viagem a Paris revelou-se de suma importância para o desenvolvimento intelectual de Leibniz ao propiciar-lhe um contato direto com o centro do mundo erudito da Europa.

III. Leibniz em Paris e Londres (1672-1676)
No fim de março de 1672, Leibniz chegou a Paris a serviço de Johann Christian von Boineburg (que morreria em dezembro daquele mesmo ano). Para Leibniz o período em Paris revelou-se um dos mais intensos e frutíferos de sua vida intelectual.
O mundo da intelectualidade, na segunda metade do século XVII, passara por inúmeras transformações. A filosofia aristotélica, que havia dominado o pensamento europeu desde o século XIII, quando um volume de obras do Estagirita fora redescoberto e traduzido do grego ou árabe para o latim, via nascer novas doutrinas com Galileu, Torricelli, Cavalieri; com Descartes, Pascal e Hobbes e muitos outros. Embora Galileu houvesse sido condenado, em 1632, e os trabalhos cartesianos tenham sido acrescentados ao Index, em 1663, a nova filosofia fazia-se prevalecer. As formas substanciais e a matéria primeira dos escolásticos davam lugar ao novo mundo mecanicista dos corpos geométricos e do movimento. Com esse novo mundo advieram novas ferramentas matemáticas. Velhos problemas ressurgiram, incluindo questões sobre a necessidade, a contingência e a liberdade em um mundo de átomos governados pelas leis do movimento; o lugar da alma e sua imortalidade; de Deus e Sua Criação.
A despeito de ter recebido cuidadosa educação acadêmica em sua terra natal, quando chegou a Paris, Leibniz possuía pouco ou nenhum conhecimento dos recentes desenvolvimentos nas matemáticas; em filosofia, ele próprio admitiria que, antes de 1675, seu contato com a filosofia cartesiana era basicamente de segunda mão, baseado em exposições vulgares.
A capital francesa lhe permitiu superar essas deficiências. A cidade reivindicava, com justiça, o papel de centro intelectual da Europa. O próprio Leibniz nos revela:

“Paris é um lugar onde apenas com muito esforço se pode alcançar a fama. Encontram-se aqui os mais notáveis homens de nosso tempo, em todos os ramos do conhecimento. É necessário trabalhar muito e com determinação para se estabelecer uma reputação.” (carta a Johann Friedrich, 1675 [A I, 1, 491] apud Parkinson)

Exatamente determinação e capacidade de trabalho eram atributos dos quais Leibniz não carecia e imediatamente foi aceito nos círculos intelectuais que incluíam eminentes matemáticos e filósofos, tais como: Huygens, Arnauld e Malebranche. Buscou, também, ter acesso aos manuscritos de Pascal e de Descartes (de fato, alguns dos textos cartesianos chegaram até nós graças a cópias de Leibniz).
Em janeiro de 1673, Leibniz viajou a Londres em uma outra missão política. Lá travou amizade com membros da Royal Society, dentre os quais Henry Oldenburg. Expôs a essa academia uma máquina de calcular que inventara; mais versátil do que a de Pascal. Já em abril de 1673, pouco depois de retornar a Paris, Leibniz foi eleito membro da Royal Society.
Em Paris, dedicou-se às matemáticas, especialmente à geometria, iniciando uma série de estudos originais que culminariam com o desenvolvimento do cálculo infinitesimal.

IV. Leibniz em Hanover (1676-1716)
Leibniz retornou a Hanover em dezembro de 1676. No caminho de volta, deteve-se na Inglaterra e na Holanda, onde se encontrou com Espinosa.
Embora freqüentemente viajasse e assumisse responsabilidades em outras localidades, Hanover viria a ser seu principal domicílio para o resto da vida. Lá assumiu atribuições variadas: foi engenheiro de minas; um não bem sucedido supervisor de exploração das minas de prata das montanhas Harz; bibliotecário-chefe de uma vasta coleção de livros e manuscritos; diplomata; conselheiro; historiador da corte.
Escreveu uma história geológica da região da Baixa Saxônia: Protogaea, que se revelou um importante trabalho na história da geologia quando foi finalmente publicada, em 1749.
Ademais, publicou numerosos volumes de documentos históricos por ele encontrados quando de suas pesquisas em arquivos visando coletar material para a história da nobreza de Hanover, bem como empreendeu as primeiras pesquisas sobre as línguas européias, suas origens e evolução.
Porém, através de uma sucessão de empregadores em Havover e alhures, Leibniz continuou a desenvolver o sistema filosófico que iniciara em Paris e mesmo antes, em uma série de ensaios e cartas. Em 1686, ele escreveu a Ernst von Hessen-Rheinfels:

“Compus, recentemente, um pequeno discurso de Metafísica sobre o qual ficaria contente de ter a opinião do senhor Arnauld. Pois as questões da graça, do concurso de Deus com as criaturas, da natureza dos milagres, da causa do pecado e da origem do mal, da imortalidade da alma, das idéias etc. são abordadas de uma maneira que parece dar novas aberturas capazes de esclarecer algumas grandes dificuldades.” (GP II, 11)

Leibniz não enviou a Arnauld todo o Discurso de Metafísica, mas sim, os resumos dos parágrafos. Tais resumos foram preservados como cabeçalhos de cada parágrafo.
Porém, embora Leibniz tenha elaborado, visando a publicação, o conjunto Discurso/correspondência não foi efetivamente tornado público durante a vida do filósofo. A primeira exposição do seu sistema metafísico ocorreu em 1695, no Journal des Savants: Sistema Novo da Natureza e da Comunicação das Substâncias.
Com prodigiosa energia, habilidade e esforço, Leibniz conseguiu desempenhar três papéis: o de erudito; de servidor público; e de cortesão. Possuía espantosa energia para o trabalho; muitas vezes, fazia as refeições à mesa de trabalho e dormindo muito pouco.
Era um homem de estatura mediana, esbelto; sua calvície coberta por uma peruca do tipo comum na Paris de sua juventude. Embora com vida sedentária, possuía boa saúde – um sono profundo com boa digestão. Por costumar trabalhar até tarde da noite, não gostava de levantar-se cedo, tal como Descartes. E embora a leitura fosse sua atividade favorita, gostava de se misturar com as pessoas sempre buscando aprender algo. Seus contemporâneos o descreviam como possuindo hábitos moderados.

Fontes:
ARIEW, R. G.W. Leibniz, life and works. In: JOLLEY, N. The Cambridge Companion to Leibniz. New York: CUP. 1995. pp. 18-42
PARKINSON, G. H. R. De Summa Rerum. Metaphysical Papers (1675-1676). New Haven. Yale University Press. 1992
RESCHER, N. G.W. Leibniz's Monadology: an edition for students. Pittsburgh: UPP. 1991. pp. 3-9

Algumas biografias disponíveis em línguas inglesa e alemã:

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