diÁlogo entre teÓfilo e polidoro

(Dialogue entre Theophile et Polidore.) [1679]
G. W. Leibniz
Fonte: Gaston Grua, 285-287


Polidoro – Creio existir uma alma no mundo e que a este fornece vida e movimento.
Teófilo – Disso tu não poderás se esquivar. Vejamos: essa alma age por escolha ou por necessidade?
Polidoro – Talvez por necessidade.
Teófilo – Portanto, tu não precisas de uma alma e tens apenas que afirmar, primeiro, que são necessários essa forma e esse movimento do mundo. Todavia, nada é absolutamente necessário quando o oposto é possível. Ora, não há absolutamente qualquer impossibilidade ou contradição em pensar um mundo sem Sol, e um Sol posicionado e movendo-se de modos diversos do nosso.
Polidoro – Tenho que admitir que o mundo poderia ter sido criado de mil outros modos, mas, esse é aquele aparentemente mais simples, e a natureza age pelos meios mais concisos sendo, portanto, necessário que atue deste modo.
Teófilo – Se essa natureza ou alma do mundo ou, em resumo, essa força propulsora à qual tu fazes referência é capaz de razão, entendo que ela atuará por meios que considere os mais simples. De outro modo, não entendo como a simplicidade prevalecerá. Pois uma causa sempre atua o tanto quanto pode e na medida em que não é impedida. Portanto, deve ocorrer que ou todas as coisas possíveis se produzam (o que não é possível já que há muitas que são incompatíveis) ou, então, que nada se gera a si mesmo.
[Teófilo – Tu não formaste seu dilema de modo apropriado; há um modo intermediário visto que de todas as coisas possíveis, é necessário que [aquelas venham a ser produzidas].
[Teófilo] Polidoro – Parece-me que há uma concordância: pois de todos os modos possíveis de se fazer o mundo, um logrou ser preferido a todos os outros – um que produz a maioria das coisas simultaneamente e, por assim dizer, contém muita essência ou variedade em um pequeno volume; e que, em resumo, é o mais simples e rico. [Vamos supor que existam].
Teófilo – Eu compreendo o que queres dizer. Suponhamos que A, B, C, D, E, F, G sejam possíveis seres, igualmente perfeitos e candidatos à existência, entre os quais há incompatíveis: A com B, e B com D, e D com G, e G com C, e C com F e F com E. Afirmo que se pode fazer existir dois seres simultaneamente, de quinze modos distintos: AC, AD, AE, AF, AG, BC, BE, BF, BG, CD, CE, DE, DF, EG, FG ou, de outra maneira, três seres dos seguintes modos: ACD, ACE, ADE, ADF, AEG, AFG, BCE, BEG, BFG, [CDE] e CDE ou, ainda, quatro de um único modo: ACDE, que será o escolhido prevalecendo sobre todos os outros, pois por seu intermédio existe o máximo possível; e, conseqüentemente, esses quatro ACDE existirão em preferência aos outros BFG que serão excluídos, na medida em que assumindo-se um deles, não será possível fazer existir os quatro em conjunto. Por isso, se houvesse algum poder nas coisas possíveis para colocar a si próprias na existência, e para vir à luz à frente das outras, então, aquelas quatro inquestionavelmente prevaleceriam, pois nesse combate a própria necessidade escolheria a melhor opção possível, tal como verificamos nas máquinas ou na natureza, que sempre escolhe a opção mais vantajosa para diminuir o centro de gravidade de toda massa na medida de sua habilidade. Desse modo, esses mesmos quatro possíveis seres seriam preferidos. Mas, as coisas possíveis não têm absolutamente existência e, por isso, não têm o poder de trazer, a si próprias, à existência; por conseguinte, é preciso procurar a escolha e a causa de suas existências em um ser cuja existência já esteja estabelecida e, portanto, necessário em si mesmo. Esse ser deve conter em si mesmo as idéias das perfeições das coisas possíveis, a fim de escolhê-las e produzi-las. E, sem dúvida, escolherá de acordo com os graus de perfeição que estão presentes naquelas idéias, ou de acordo com a pretensão que podem ter à existência do modo já mencionado anteriormente; em outras palavras, o modo mais simples e belo de constituir o universo, tal como acima estabelecemos; reconhecer o modo pelo qual o máximo de coisas ou as mais perfeitas conseguem vir à existência; ou pelo qual se obtém a máxima essência e a máxima perfeição possíveis de se obter simultaneamente, pois, o mais belo e simples é aquele que produz o máximo com a menor dificuldade como, por exemplo, uma bola perfeitamente esférica é mais simples que qualquer outro corpo, pois inclui maior massa no interior do mesmo perímetro; mais do que qualquer outra forma. E, por esta razão, um corpo, por exemplo, uma gota de óleo na água, colidindo com qualquer outro corpo contrário, recompõe-se em uma circunferência, a fim de perturbar e ser perturbada o menos possível. É então evidente que o Criador atuará com razão desde que opere conforme as perfeições das idéias de cada coisa, e desde que, de fato, é necessário que entenda e considere todas as coisas simultaneamente, a fim de adaptá-las entre si da melhor maneira possível. Ele possuirá o conhecimento soberano e o primeiro poder. Vejamos agora se isso que acabamos de descobrir não é o Ser que denominados Deus (...)