carta a simon foucher

G.W.Leibniz
1687
fonte: G I, 390

[...] Devemos não só rejeitar o que é insatisfatoriamente estabelecido, mas também tentar estabelecer, pouco a pouco, verdades sólidas. Certa vez escrevi um ensaio demonstrando, de continente e contento, [ver nota 1] por meio de símbolos (de algum modo semelhante à álgebra ou aritmética) algumas proposições (das quais as regras do silogismo e algumas proposições matemáticas são apenas corolários). Seria capaz de fornecer muitas outras, demonstradas hipoteticamente a partir de umas poucas suposições pela simples substituição de caracteres equivalentes, não só com relação à extensão, mas também quanto à qualidade, forma e relação. As mais importantes são aquelas sobre a causa, o efeito, a mudança, a ação e o tempo; quanto a isto descobri verdades muito diferentes daquelas em que muitos acreditam. Pois, embora uma substância possa ser razoavelmente denominada uma causa física e freqüentemente a causa moral do que ocorre em uma outra substância, apesar disto, e falando com rigor metafísico, cada substância (associada à concorrência divina) é a causa real imediata do que a ela acontece, de tal modo que, estritamente falando, não há mudança brusca, repentina. E pode-se mesmo afirmar que um corpo desloca-se sempre em razão da força que se encontra nele mesmo. Isto também é confirmado pela experiência, pois é por meio de sua força elástica que um corpo se afasta de outro restaurando seu estado após ter sido comprimindo. E embora a força elástica derive do movimento de um fluido, todavia, este fluido, quando atuante, encontra-se presente no corpo quando ele exerce sua elasticidade. Mas isto também se segue que em toda substância genuína e não apenas em uma máquina ou em um agregado de muitas substâncias, há algum “eu” que corresponde ao que denominamos alma em nós mesmos e que não é passível de geração e corrupção e que não pode ter início senão pela criação. E se os animais não são simples máquinas, há razão para se acreditar que suas gerações, bem como suas aparentes corrupções, são apenas uma transformação do mesmo animal que, às vezes, é mais visível e, em outras, menos. Esta era a opinião do autor de Dieta , obra atribuída a Hipócrates. Contudo, sustento que as mentes, tais como as nossas, são criadas no tempo e desobrigam-se destas revoluções após a morte, pois possuem uma relação muito particular com o Ser Supremo, uma relação que necessitam preservar. Com relação a elas, este Deus é não só uma causa, mas também um amo e senhor; é isto o que tanto a religião como também a razão nos ensinam. Se os corpos fossem apenas máquinas ou se houvesse apenas extensão ou matéria nos corpos, demonstrar-se-ia que todos os corpos seriam apenas fenômenos. Platão percebeu isto muito claramente, a meu ver. E parece-me que posso detectar algo do mesmo gênero em sua teses, senhor [página 59 da sua Dissertation ... contenant l'apologie des académiciens , de 1683]. Também posso provar que a extensão, a forma e o movimento envolvem algo imaginário ou aparente e que embora os entendamos mais claramente do que a cor ou o calor, todavia quando analisamos tal como tenho feito, descobrimos que estas noções também contêm suas dificuldades e que a menos que suponhamos que há algumas substâncias que consistem em algo mais, elas serão tão imaginárias quanto qualidades sensíveis ou sonhos bem elaborados. Pois do movimento em si não podemos determinar a que sujeito tal movimento pertence, e sustento ser demonstrável que não há figura [ver nota 2] precisa nos corpos. Platão percebeu algo disto, mas não poderia desfazer-se de suas dúvidas pois, à época, tanto a geometria como a análise ainda não haviam se desenvolvido. Aristóteles também entendeu a necessidade de se atribuir aos corpos algo mais que a extensão. Mas não compreendeu os mistérios da duração das substâncias e acreditou em uma real geração e corrupção, o que para ele colocava todas essas idéias de cabeça para baixo. Os pitagóricos obscureceram a verdade com sua metempsicose; ao invés de pensarem na transformação do mesmo animal, acreditavam, ou ao menos proclamavam, a passagem da alma de um animal a outro, o que não é a mesma coisa. Mas essas considerações não são adequadamente entendidas por todos e uma série usual de pessoas nunca as entenderá a menos que antes suas mentes estejam preparadas [...].

Notas:
1. Sobre aquilo que contém e aquilo que está contido;
2. “Figura” no sentido daquilo que entendemos, atualmente, por forma, no sentido mais geral da palavra. Ver Vocabulário Técnico e Científico da Filosofia . Lalande, André. São Paulo: Martins Fontes. 1999

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